11:04 am: "A mãe de todas as histórias"
Bebo Montes Claros.
"Depois de tantos anos na Relógio d'Água, vê lá tu, foi agora editado pela Averno! Enviei ontem, em correio azul, deves recebê-lo ainda antes do fim de semana." dizia-me o José António ao telefone, na sua voz pausada e suave. Senti alguma ansiedade nas suas palavras que se juntou à minha, na vontade de o ler em novos poemas.
Passados muitos anos sobre a publicação de "O rei de Sodoma e algumas palavras em sua homenagem" o meu amigo-poeta oferece-nos "A mãe de todas as histórias". Já o folheei na pressa de reencontrar o pensamento brilhante (e inquietante) do José António Almeida. E lá está.
Obrigado.
ARTE VELHA
Com ervas amargas,
com dores e feridas
- e com muitas lágrimas.
Secas são melhores,
mas na falta delas
serve só o sal.
Uma gota verte
do teu próprio sangue
para ganhar cor
e ficar vidrado
o verso por fora.
Um pouco de cuspo,
mais amargas ervas
- e põe tudo ao sol.
NUMA LIVRARIA
A profusão de imagens de rapazes
em variados formatos e poses:
ora num colorido exuberante,
ora num ascético preto e branco
- todos aureolados de beleza
na flor e em odor de juventude,
com seu círio de carne e sua folha
de palma do martírio dos prazeres
em praias só de outro mundo distante -
tudo isso, confesso com franqueza,
não me lembra senão casa de artigos
religiosos, mas com menos sonho
e menos poder de imaginação
para encher de relâmpagos as trevas.
FANTASÍA NAVIDEÑA
Pergunto-me como consegues
mudar de menino-jesus
todos os anos no Natal.
No fim da quadra deitas fora
os meninos mais o presépio,
tomas um avião e voltas
para o sossego da toca.
Todos os anos por Dezembro
armas de novo teu Belém
num canto qualquer do planeta.
Ora te vestes de rei mago
ora de ovelha - ou pastor.
Às vezes gostas de fingir-te
o burro. Ou fazes de vaca,
o papel que te vai melhor.
A mesma e perpétua vaca
que nunca consigo arredar
da gruta da minha memória:
a cova solitária
onde eu te conheci há mais
de dez atrasados Natais.
Fazia frio a solidão:
era, como agora, Dezembro.
Davas calor como ninguém,
minha muito querida vaca.
A quem possa interessar, o livro está à venda nas seguintes livrarias:
LISBOA - Trama, Letra Livre, Alexandria ;
PORTO - Latina, Utopia, Gato Vadio.
Pode ser pedido directamente à Averno.